Entrevista de Alexandre Pimentel na Rádio CBN Saúde com o jornalista
Estêvão Damásio em 14 de junho de 2006 às 10h35min.
RÁDIO CBN/SAÚDE - Estamos com Alexandre Pimentel, especialista em alimentação, ele também é escritor. Alexandre, um prazer recebê-lo, um bom dia!
Alexandre Pimentel - Bom dia Estêvão, bom dia aos ouvintes da rádio CBN!
RÁDIO CBN/SAÚDE - Hoje o tema será educação alimentar para as crianças.
Alexandre Pimentel - Pois esta é uma dificuldade, não Estêvão? Esta é uma dificuldade de todos nós...
RÁDIO CBN/SAÚDE - Exato, eu até fiz uma menção a essa entrevista, chamando a atenção para o seguinte fato: A gente ouve muito a seguinte reclamação: O meu filho não gosta de comer verdura, o meu filho detesta fruta, o meu filho está viciado em refrigerante. O que o senhor pode começar a destacar para o nosso ouvinte, Alexandre?
Alexandre Pimentel - É, dificilmente quando comentamos isso nós pensamos: - Não, a responsabilidade é minha o fato de meu filho ter esse tipo de hábito, porque na verdade ele não conseguiu refrigerante sozinho. Eu introduzi esse hábito dentro de minha casa. E toda vez que meu filho começa a se submeter ao glutamato monossódico, presente em mais de 93% dos alimentos produzidos industrialmente, ele vai cair nesse “vício” e vai perder a capacidade de sentir sabor em coisas naturais como frutas, verduras e sucos. E isso realmente é um problema que nós temos que resolver. E isso vai aos poucos. Nós temos algumas dicas para que se possa resolver dentro de casa esse tipo de problema.
RÁDIO CBN/SAÚDE - Por exemplo, é respeitada, é claro, a própria condição da criança, no primeiro ano de vida, até os 6 meses é o leite materno ou quando a mãe não tem condições de amamentar, o leite tipo NAN que supre as necessidades e as carências de todo o bebê. A partir dos 6 meses de idade, Alexandre, que tipo de dica o senhor já pode fornecer ao nosso ouvinte?
Alexandre Pimentel - Veja só: Quando nascem os primeiros dentinhos no nosso bebê, Estêvão, significa que ele já tem enzimas prontas e pode começar a comer. Os dentes são os sinais de que aquele ser humano está pronto para começar a digerir alimentos. São sinais bem claros da natureza. Então esse é o momento da mãe e do pai (do pai também e não somente a mãe!) começarem a introduzir as monodietas. E que é isso? Começar a introduzir hoje o mamão, amanhã o suquinho de manga, enfim, ir colocando alimentos, principalmente começar com as frutas, para que essa criança desenvolva enzimas. E o que vai acontecer? Tudo aquilo que eu até os 7 anos de idade experimentei e desenvolvi enzimas no meu estômago, no meu intestino, eu vou gostar na idade adulta. Aqueles alimentos que não me foram oferecidos até este período marcante dos 7 anos eu provavelmente não vou gostar do sabor, independente do que seja...
RÁDIO CBN/SAÚDE - É, isso é importante, esse dado seu, já é um bom parâmetro, até os 7 anos seria um divisor de águas no quesito alimentação para crianças.
Alexandre Pimentel - É o divisor, exatamente o divisor de águas, é o tempo que nós temos para mostrarmos aos nossos filhos que aquilo que a mãe natureza criou é muito melhor do que aquilo que a indústria criou. Porque os alimentos vindos da natureza: As frutas, as verduras, os legumes, os cereais, já estão na proporção certa, na embalagem certa. Se você comer uma banana e jogar a casca na natureza, aquilo é um bem para a natureza, porque ela vai ser digerida, vai se transformar em adubo, mas se você jogar um copinho ou uma garrafa de refrigerante na natureza, aquilo é um mal para a natureza. Então, o ensinamento, a lição que nós devemos passar para os nossos filhos não é apenas eles comerem bem e ficarem bem nutridos, mas que aquilo que eles fazem, os seus hábitos, causam impacto no meio ambiente, causam impacto no mundo, além de causar impacto na saúde dessa pessoa que, na idade adulta, irá colher exatamente o que ela plantou na infância.
RÁDIO CBN/SAÚDE - Agora, por exemplo, esta data, esta idade, melhor dizendo, sete anos da criança, é cientificamente, está provado que é realmente o divisor de águas? Se até os sete anos a criança não experimentou frutas, verduras ou outros tipos de alimentos, provavelmente ela ...
Alexandre Pimentel - Provavelmente...
RÁDIO CBN/SAÚDE - ...o organismo dela não vai nem aceitar depois dessa idade ou vai ter muito mais dificuldade para assimilar esse tipo de alimento?
Alexandre Pimentel - É, veja bem, isso tudo depende de quantidade né, se eu comi pouquinho ou se foi mais na infância. Mas a Universidade de São Paulo tem dados sobre isso. Inclusive ela tem mostrado hoje, Estêvão, que nós temos enzimas para a digestão do leite de nossa mãe até os três anos de idade. Então qualquer mãe pode tranqüilamente amamentar seu filho até os três anos de idade e não precisa ficar limitada àquela coisa dos seis meses.
RÁDIO CBN/SAÚDE - Éhh, você vê mães amamentarem até acima do primeiro ano de vida...!
Alexandre Pimentel - Sim, é, eu tenho seis filhos e os meus filhos, a maioria deles, chegaram até os três anos de idade mamando. E a gente enxerga o impacto disso na saúde porque o leite materno é uma vacina que vai prevenir contra várias doenças e vai promover saúde para aquela pessoa durante a vida toda.
RÁDIO CBN/SAÚDE - E a partir do momento que a dieta do bebê começa a mudar, ou seja, ela passa a não ficar mais dependente somente do leite materno ou de outro tipo de leite e passa a ter na dieta dele outros produtos, isso é compatível, o senhor citou frutas, começar a dieta com frutas, é compatível o leite com frutas? Há algumas combinações que devam ser evitadas?
Alexandre Pimentel - Veja bem, uma coisa importante para as nossas crianças, para os nossos filhos, é que eles aprendam a comer folhas verde-escuras, porque as folhas verde-escuras têm o cálcio na proporção correta, têm a maioria dos nutrientes que a gente precisa, inclusive uma boa quantidade de proteínas, mas a maioria das crianças resiste e maioria dos pais não tem hábito de oferecer, por exemplo, o suco verde, que é o suco de couve batido no liqüidificador com limão, um pedaço de rapadura, açúcar mascavo, algumas folhas de hortelã, isso fica muito gostoso e vai fornecer para as crianças um combustível excepcional para que elas possam se movimentar, possam aprender na escola, possam fazer educação física e paralelamente a isso, Estêvão, nós que temos trabalhado muito com comunidades carentes aqui na região do DF, temos sugerido aos pais a utilização da multimistura, porque a multimistura que já tem trinta anos de tradição no Brasil, quando acrescida às refeições do dia-a-dia, ao arroz que deixou de ser integral, por exemplo, e se tornou branco, dessa forma ele fica desnaturado, fica completamente sem nutrientes, ao pão branco, todos os alimentos refinados. Se você tem esse hábito ainda, de consumir esses alimentos, acrescente ao seu prato, no prato do seu filho uma colher ou duas de multimistura que você vai estar devolvendo para aquele prato os minerais, as fibras necessárias e, dessa forma, evitando uma das piores doenças do século que é a chamada prisão de ventre. A partir da prisão de ventre, a partir do momento que nós seguramos no interior do nosso organismo, do nosso intestino, quando nós não conseguimos eliminar, isso é foco para a geração de inúmeras outras doenças sociais e comunitárias conhecidas, inclusive as doenças degenerativas.
RÁDIO CBN/SAÚDE - É, e essa prisão de ventre no caso do bebê, até um ano é muito comum...
Alexandre Pimentel - É muito comum...
RÁDIO CBN/SAÚDE - E ele acaba sofrendo bastante né?
Alexandre Pimentel - Acaba sofrendo muito. E é nesse momento também que ele pode ficar dependente dos laxantes. A mãe começa e dar laxantes e o organismo do bebê se acostuma com aquele estímulo artificial e isso é um mal para a vida da pessoa.
RÁDIO CBN/SAÚDE - Agora, por exemplo, o senhor se referiu ao suco verde, ao suco de couve, às gotinhas de limão e outras folhas verde-escuras e à multimistura....
Alexandre Pimentel - Pois não...
RÁDIO CBN/SAÚDE - As próprias frutas contém também fibras, essas folhas verdes que acabam fazendo com que o intestino da criança funcione melhor. Multimistura: De que é composta esta multimistura e a partir de quando você pode começar a colocar umas colherinhas na alimentação do seu filho?
Alexandre Pimentel - Certo! É exatamente como eu falei. A partir do momento que o nosso bebê tiver os dentinhos, ele está preparado para comer, então, você pode acrescentar a multimistura na comida. Veja que o Brasil produz hoje, Estêvão, 800 mil toneladas anuais de farelo de arroz e um milhão de toneladas de farelo de trigo que são enviadas para fora do Brasil, a maioria desses alimentos, para alimentar gado americano, gado europeu, para depois esses sub-produtos, desse gado, serem importados pelo Brasil. Se nós utilizarmos esse farelo de arroz, esse farelo de trigo na forma da multimistura, acrescida de folha de mandioca desidratada, folha de abóbora desidratada e várias outras plantas que nós temos no Brasil e chamamos de “hortas perenes”, tipo a beldroega, o caruru, a ora-pro-nóbis. Quando nós reaprendermos a utilizar essas riquezas nós não vamos passar fome. Pode ser que nós tenhamos nenhuma culinária francesa, em termos de sabor, mas dá sim para fazer uma coisa muito gostosa, de baixo custo e altíssimo valor nutricional: Isso é a multimistura!
RÁDIO CBN/SAÚDE - E essa multimistura é uma referência até internacional?
Alexandre Pimentel - Internacional!
RÁDIO CBN/SAÚDE - A Zilda Arns, ela batalha muito por isso né?
Alexandre Pimentel - Sim, e aqui em Brasília a Dra. Clara Brandão, que tem levado (a idéia da multimistura) para vários países do mundo, coisas que entre nós, né Estêvão, não valorizamos ainda muito aqui no Brasil. Temos problemas ainda corporativos com uma coisa que funciona muito, que há trinta anos no Brasil têm demonstrado seus efeitos benéficos na mesa de milhares de crianças. Existe uma estimativa de nós termos salvo mais de três milhões de crianças no Brasil graças à multimistura. Elas foram salvas de morrer de fome!
RÁDIO CBN/SAÚDE - Ahh, combate efetivamente a desnutrição...Agora, para as crianças um pouquinho maiores, que ainda não chegaram aos sete anos de idade, mas a gente sai aí, né, Alexandre nos shoppings, a gente vê a quantidade de pratos que estão sendo colocados em frente às crianças, crianças de três, quatro, cinco anos.: Batata frita, hambúrguer. E tem pais que levam esses alimentos para o próprio restaurante fast-fod...E a criança...Não. O meu filho só come isso, ele só aceita comer isso... Onde que foi o erro? Foi justamente não ter inserido desde cedo, começado a inserir este tipo (saudável) de alimento?
Alexandre Pimentel - Veja só, Estêvão, no Brasil nós temos dois tipos de desnutrição. Nós temos a desnutrição da carência, nós temos a desnutrição da exclusão e nós temos a desnutrição da opulência e da falta de informação. Então você vai encontrar anemia, você vai encontrar problemas graves de saúde tanto nas crianças de classe baixa quanto em crianças de classe alta. A diferença é que nós temos nas classes alta e média, os obesos e nas classes baixas as crianças muito magrinhas, mas a desnutrição é a mesma. E o que acontece? Nós pais, acabamos nos dando conta quando nós precisamos atender a demanda. Quando o nosso filho acaba trazendo à tona esses problemas de saúde originários de uma dieta mal produzida, mal planejada, desnaturada, anti-ecológica. E é nesse momento que nós tentamos “tapar” com remédios farmacêuticos. E aí cada vez vai piorando mais a situação!
RÁDIO CBN/SAÚDE - Agora, Alexandre, aquela criança que demonstra resistência em ter uma saladinha no prato. Que formas os pais podem adotar para inserir isso na dieta dos seus filhos? Sucos, são o melhor caminho?
Alexandre Pimentel - Olha só: A primeira coisa, mais importante, é eu verificar o que o meu filho gosta. Pois bem, o meu filho gosta, por exemplo, de suco de laranja. Então eu vou aprender, Estêvão, a colocar dentro desse suco de laranja, algumas coisas que ele supostamente não gosta, mas não vai notar, por exemplo, se eu colocar uma colher de chá de folha de mandioca desidratada nesse suco (eu bato no liqüidificador com o suco de laranja), essa colherinha (de pó de folha de mandioca), no linguajar popular - só para utilizar aqui o linguajar bem popular! - essa colherinha corresponde a vitamina A e a vitamina C de 3 cenouras ou dois pés de alface! Então, quando eu coloco isso para o meu filho, dentro do suco de laranja - e ele não vai notar!- ou no suco verde, melhor ainda, ou um suco de uva, qualquer coisa, eu vou estar fazendo com que, eu vou estar mascarando bons alimentos e fazendo com que o meu filho tenha essa ingestão. Outro exemplo: Se eu colocar para cozinhar, dentro do feijão, folhas de abóbora, o feijão vai ter um sabor muito melhor. E as folhas de abóbora tem em torno de vinte vezes mais nutrientes do que o fruto da abóbora, do que a própria abóbora. Tantos recursos no Brasil que nós desperdiçamos, que seriam altamente benéficos e muito baratos para nós cuidarmos da saúde de nossos filhos.
RÁDIO CBN/SAÚDE - E acabam despercebidos, se devidamente misturados né, mascarados, mas o “mascarar” não é um termo pejorativo! É uma forma de nutrir o seu filho sem que ele até perceba!
Alexandre Pimentel - Exatamente! Por exemplo, no caso da nossa família, nós costumamos produzir pão em casa. E dentro desse pão nós colocamos todo o possível e imaginável! Vai farelo de arroz, vai farelo de trigo, vai o gergelim que é uma riqueza de cálcio. Duas colheres de gergelim correspondem ao cálcio de um litro de leite! Nós colocamos a linhaça, várias sementes moídas, a semente da abóbora, por exemplo, que entre outras coisas é um vermífugo excepcional. Criança que costuma ingerir a semente da abóbora moída ou torradinha em forma de pipoca, essa criança eliminaria muitos vermes. Esses são recursos que sós tivéssemos, repito, hábito de utilizar no dia-a-dia, nós produziríamos seres humanos, produziríamos pessoas muito mais adaptáveis ao aprendizado, ao exercício físico, pessoas mais calmas, menos hiperativas, menos dependentes de hospital, menos dependente de farmácia, menos dependentes de remédio.
RÁDIO CBN/SAÚDE - E todas essas dicas, onde o nosso ouvinte pode encontrar, Alexandre? Por exemplo, cozinhar a folha de abóbora dentro do feijão, inserir esses farelos na própria comida das crianças. Aonde que eu como ouvinte, por exemplo, posso encontrar essas dicas?
Alexandre Pimentel - Pois não. Nós temos uma lista na Internet, Estêvão, onde nós informamos assim, diariamente às pessoas. Estamos sempre pesquisando e mandando por e-mail. Então, as pessoas que desejarem receber essas dicas, podem mandar um e-mail para
alexandre.natural@yahoo.com.br .
RÁDIO CBN/SAÚDE - a l e x a n d r e . n a t u r a l @ y a h o o . c o m . b r . Yahoo é y a h o o...
Alexandre Pimentel - Isto mesmo: h o o, ou telefonar para 3273.3202.
RÁDIO CBN/SAÚDE - 3 2 7 3 . 3 2 0 2 ...Ok, Alexandre
Alexandre Pimentel - E no nosso livro ,Estêvão, “Receitas Inteligentes”, nós temos, então, todas essas dicas, também. E todo pai, toda mãe pode ter acesso e , assim, colocar em prática o que a gente acabou de falar agora, aqui!
RÁDIO CBN/SAÚDE - Receitas Inteligentes, o livro do Alexandre Pimentel, especialista em alimentação, escritor, que foi o nosso convidado, portanto, nesse bloco CBN Saúde. Alexandre, mais uma vez prazer em conversar com você. Um grande abraço!
Alexandre Pimentel - Um bom dia a você e aos nossos queridos ouvintes!